Ásana - O Trono Sagrado do corpo, da mente e do espírito

Atualizado: Ago 28

O que é o ásana na visão contemporânea? (Parte 1)


Ásana é um conceito proveniente da língua sânscrita e, ao mesmo tempo, um tipo de técnica utilizada na prática do Yoga. Possui várias interpretações diferentes, dependendo do contexto ao qual o termo é associado.


É comum nas escolas modernas de Yoga observar o termo ásana como uma forma de exercício físico ou técnica corporal que promove o correto gerenciamento da saúde. Esta observação está correta dentro daquilo que se entende como prática contemporânea de Yoga, afinal, a prática do ásana é, sem dúvida nenhuma, um revigorante tônus para a saúde. Contudo, a prática do ásana é muito mais profunda, conceitualmente, e repleta de riquezas culturais, míticas e, certamente, vai além dos aspectos funcionais - no sentido de aprimorar a saúde do praticante.


Mas fora do contexto do Yoga, observando o termo ásana apenas como uma simples palavra, sem interpretações filosóficas ou conceituais, a tradução literal do termo, que pertence ao idioma sânscrito, sugere simplesmente assento, como o assento de uma cadeira, de uma almofada, de um banco para acomodar o indivíduo. É, basicamente, um objeto para se sentar.


Já na visão do Yoga moderno, que é o que praticamos hoje em dia na maior parte das escolas yogis, ásana é, além do assento do Eu ou do espírito, o posicionamento ou ajuste corporal em favor do correto gerenciamento dos aspectos funcionais do organismo humano, estruturado, essencialmente, por uma construção mental que integra uma série de características subjetivas e físicas. Ou seja, ásana é áquilo que promove, de forma firme e confortável, a integridade do Ser através da potencialização das faculdades físicas e mentais do praticante. É a prática do aprimoramento e da afinidade do corpo, da mente e do espírito. Utilizando-se dos ásanas como ferramentas para incrementar a saúde e despertar os poderes psico-físicos já existentes na condição humana, mas que sem treinamento adequado permanecem inativos ou com pouca relevância no gerenciamento da vida.


Trazendo essa leitura para a prática moderna dos ásanas, acredito, é produzir física, mental e espiritualmente, uma vez em ásana, a mesma sensação de estabilidade e conforto que produzimos ao se sentar numa cadeira para descansar depois de um dia intenso de atividades - e como isto é confortante não é mesmo? Para que, uma vez assentado em sua mente e coração, de forma firme e confortável, sua natureza original se manifeste e se faça presente no mundo através do ásana.


No Hatha Yoga moderno a palavra ásana foi sendo ressignificada e apropriada para estabelecer um conjunto de técnicas corporais a fim de reforçar a estrutura biológica do indivíduo, para que ele, o praticante, possa suportar o empuxo evolutivo de seu treinamento até à sua meta, Samádhi (autoconhecimento e vivificação) proposta pelo Raja Yoga (O Yoga completo) e, assim, ao seu objetivo final, Kaivalya ou Moksha (libertação do sofrimento e das ilusões).


Importantes Mestres contemporâneos contribuíram para essa ressignificação e, porque não dizer, atualização do conceito ásana para os moldes praticados hoje em dia. Entre eles, um dos Mestres mais expressivos foi: Swami Kuvalayananda, fundador do Instituto Kayvalyadhama de Yoga Científico, em Lonavala, na Índia.


Swami Kuvalayananda (1883 - 1966)

Qual foi a principal técnica que influenciou o conceito contemporâneo de Ásana?


Há uma crença em grande parte das escolas de Yoga moderno que os ásanas, praticados hoje em dia, teriam nascidos em antigas literaturas perdidas ou povos que reverenciavam o corpo na antiguidade e, portanto, teriam desenvolvido os ásanas. Contudo, não há evidências arqueológicas sobre isso. Então, prefiro me deter nas fontes literárias disponíveis e nas orientações dos meus antigos professores e, em especial, de meu Mestre Sri Dharma Mitra, que segue uma linhagem fidedigna ao que nos propomos professar aqui, o conceito e prática dos ásanas no Yoga moderno e postural.


Dentre as bases da prática contemporânea dos ásanas, podemos citar uma técnica bastante antiga, chamada por muitos de Arte do Mallakhamb. Conhecida também como Korunta Yoga. Esse método que veio de antigas práticas de guerrilha em florestas é um famoso esporte tradicional indiano em que o indivíduo, basicamente, executa posições físicas junto a um poste vertical de madeira ou corda.


As primeiras referências ao Mallakhamb estão no clássico Manasholas, do século XII, escrito por Chalukya (1135 d.C.). No entanto, o esporte ficou inexplicavelmente inativo por cerca de sete séculos e foi revivido à modernidade por Balambhatta Dada Deodhar, no século XIX, enquanto, conta-se, meditava nas qualidades e habilidades naturais dos macacos, quando lhe ocorreu a história de Mahabali Hanuman, o deus macaco, personagem citado no Ramayana, que possui uma forma meio homem e meio macaco, dotado de imensa força e poderes mágicos.


"Há evidências de que a atividade física e o esporte de Mallakhamb são praticados desde 1135 d.C. no subcontinente indiano. Como qualquer outra atividade física e esporte, Mallakhamb tem evoluído e, em sua forma atual, oferece benefícios à saúde física e mental aos seus praticantes regulares. Malla em sânscrito significa lutador, atleta e outros significados; O dicionário Monier-Williams e o dicionário sânscrito de Apte afirmam: atleta, homem forte. Também pode significar uma expressão verbal, como forte ou bom. Khamb ou kham - em Marathi, falado, significa um poste. Portanto, Mallakhamb ficou conhecido como luta contra um poste. No entanto, existem dois outros estilos de Mallakhamb, como corda e mallakhamb suspenso." (Mallakhamb Federation of USA)


Praticantes de Mallakhamb

Outra importante técnica contribuiu para a estruturação dos exercícios e da nomenclatura parcial dos ásanas praticados pelo Yoga Postural. É um tipo de ginástica laboral aprimorada durante o jugo britânico, na Índia, para minimizar o estresse e tensões produzidos por longas jornadas de trabalho nas fábricas e escritórios.


Essa técnica é conhecida como Sukshma Vyayama e foi desenvolvida por Maharishi Kartikeya Maharaj com base, acredita-se, nos exercícios da literatura Hatha Yoga Pradipika, por influência das Mudrás (selos do inconsciente, gestos ou posturas corporais) e Bandhas (contrações e expansões). Contudo, há uma outra linha historiográfica bem mais amparada por provas documentais e, portanto, considero mais confiável na multiversidade cultural indiana que considera o Vyayama apenas, e, nem por isso menos importante, como uma ginástica laboral nascida dentro dos círculos militares a fim de gerenciar a boa saúde dos guerreiros.


O Vyayam ou Vyayama é uma espécie de treinamento físico para as artes marciais indianas, relacionado, também, como preparação física à dança e ao teatro indiano. Nas suas origens foi uma disciplina utilizada como técnica de otimização de potencialidades e profissões.


A técnica Vyayama foi, pelo que compreendemos, desenvolvida a partir do treinamento que os guerreiros da antiga Índia recebiam do Dhanur-Vidhia ( o conhecimento do arco e flecha).


Seja como for, é inegável a contribuição dessa técnica para o grande acervo de ásanas praticados hoje em dia nas seções regulares de Hatha Yoga moderno ou Yoga Postural de diferentes linhas.


Dhirendra Brahmachari praticando Sukshma Vyayama

Continuaremos, na parte 2, falando sobre as características gerais que compõem a prática dos ásanas na visão do Yoga postural moderno.



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