Por que o Yoga recomenda a dieta vegetariana



adicionalmente a comunidade hindu, em sua grande maioria, é vegetariana. Isto se dá por uma série de episódios históricos, que envolvem desde a proibição do consumo de carnes por parte dos primeiros invasores islâmicos em conluio às elites políticas e econômicas da antiga Índia a crenças religiosas. Porém, um detalhe que deve ser considerado neste importante aspecto da cultura védica é que os antigos hindus, principalmente aqueles que se dedicavam às práticas ascéticas, espirituais, artísticas e intelectuais perceberam que uma alimentação a base de sementes, nozes, cereais, hortaliças, frutas, legumes, raízes e produtos lácteos, era mais saudável e melhorava o desempenho nas áreas em que atuavam. Perceberam, também, que a alimentação vegetariana produzia menos agentes intoxicantes ao organismo, constituindo-se, portanto, em uma eficaz estratégia de higiene alimentar e incremento da expectativa de vida.

Sobre isso, para que entendamos os alicerces de tal recomendação, ou mesmo, princípio da boa saúde, é preciso penetrar um pouco mais nos aspectos sutis da dieta vegetariana para compreender sua herança cultural na tradição yogi.

Os aspectos éticos e sutis da alimentação no Yoga


Na literatura clássica do Yoga podemos encontrar importantes referências sobre a recomendação à alimentação vegetariana. Três textos são marcantes neste aspecto: A secular Bhagavad-Gita que constitui o mais importante capítulo da Mahabharata, o grande épico literário da Índia, os Yogasutras de Patáñjali, do século III/IV a.C. que define o Yoga como um ponto de vista (dárshana) do Hinduísmo, e a Hatha Yoga Pradípiká, de Swami Swátmáráma, do século VI d.C., que é o celebre texto que confere a Luz sobre o Hatha Yoga, segundo a linhagem do fundador da escola Hatha, Gorakshanatha.

No Capítulo 2, Sádhanapáda, dos Yogasutras, na parte que indica o treinamento yogi em oito partes, ashtanga sádhana, encontramos as normas éticas, yamas e niyamas, que precisam ser observadas para que o yogi, dentre outras técnicas e conceitos, possa se estabelecer como tal. Segue a orientação. Yamas: Normas éticas de relacionamento com o mundo.


Yama é a não violência (ahimsa), a autenticidade (satya), o não roubar (asteya), a prática de uma vida espiritualmente regrada (brahmacharya) e o não cobiçar (aparigraha). Essas normas não estão restritas a classe social, lugar, tempo e circunstâncias, e são chamadas de o grande voto, que serve para o mundo todo” (YOGASUTRAS, II, 30-31).

Ao tratarmos o assunto, Yamas, estamos na verdade, tratando da maneira como nos apresentamos ao mundo. De uma proposta harmoniosa e respeitosa com todos os seres, como citado nos Yogasutras. Dentro da tradição do Yoga é impossível praticar sem considerar e promover esses preceitos. Não há Yoga sem Yamas e Niyams. Não existe a prática sem a total e verdadeira imersão nesses preceitos.


Ahimsa (“A” - não; “himsa” - violência), a não violência nos pensamentos, nas palavras e nas ações. Não ser violento em seus pensamentos, sobre você ou sobre os outros. Não ser violento em suas palavras, não cultivar uma comunicação violenta e intolerante, não cultivar palavras densas ou de baixo calão. E não ser violento, como resultado, em suas ações. Neste conceito, ensina o empirismo yogi: Não se alimente do sofrimento, da dor, do sangue e das carnes de outros animais havendo a possibilidade de alimentar-se saudável e adequadamente respeitando o próprio organismo e mantendo, assim, a correta higiene alimentar e mental.


O pensamento é a energia mais sutil e mais poderosa que nós, seres humanos, produzimos. Para a cultura hindu, o pensamento é “karmicamente” transmitido para a eternidade, até que ele volte para o seu emissor a fim de completar o seu ciclo natural de causa e efeito - Karma. Tudo que acontece em sua vida é o resultado direto dos seus pensamentos, palavras e ações. Fazer mal ao outro é fazer mal a si mesmo. Perceber-se como o outro e dar o devido valor a todas as formas de vida, a todas as criaturas, tende a produzir bons resultados.


Dois princípios são muito importantes dentro do valor ético do hinduísmo, acompanham ahimsa: Abhaya (libertação do temor) e Akrodha (libertação da Ira).


O medo paralisa e entorpece. Medo do futuro, do passado, do desconhecido, de perder sua subsistência, sua saúde, reputação, mas por fim, todos têm a sua raiz no medo da morte. Entender que o corpo em que se reside é transitório e impermanente, e que todas as coisas assim também o são. O destemor (abhaya), é o fruto da perfeita autorrealização - ele ressignifica o a ideia da não dualidade. É perceber em si mesmo o Ser Universal e, como resultado, o Ser Universal em todos os seres.


Akrodha é a ausência de raiva, mesmo quando há motivos. Manter um temperamento uniforme e calmo, apesar das circunstâncias (BAGHAVAD GITA, XVI, 1-3).


A violência, essencialmente, estabelece suas bases no medo, na ignorância ou na inquietude destrutiva. Para que se alcance um estado contrário, é preciso libertar-se desses estados inferiores de existência, é preciso uma transformação no modo de vida e nos padrões mentais. Basear-se no amor, na verdade e na introversão da inteligência, e não em achismos e nas armadilhas do próprio ego que alimenta os devaneios da mente.


O que podemos, então, entender sobre ahimsa? Que ahimsa é uma norma ética de convivência com os outros e, certamente, comigo mesmo. Que significa, como dito, na não violência em pensamentos, palavras e ações. Que é libertar-se do medo e se perceber como parte indivisível dos outros seres, não como iguais, mas como semelhantes. Não cultivar a raiva, a indiferença à vida manifesta, mas sim o amor. Afinal, você seria capaz de comer seu animal de estimação? Certamente que não! Logo, a compaixão por todos os seres nos liberta da raiva e da ignorância.

Mas ainda assim, havendo dúvidas, o que isso tem a ver com o que comemos?


A observação e atenção ao que está se alimentando, cotidianamente, é imprescindível para a boa saúde física e mental. Portanto, qual é a base da minha dieta?


Ao nos alimentarmos de sementes, flores, frutos, folhas, raízes e outros alimentos biologicamente saudáveis, colocamos para dentro muita vitalidade. Alimentos repletos de energia materializada. Mas ao nos alimentarmos de carnes mortas, o que realmente colocamos para dentro do nosso organismo?

Certamente, aqui, entramos em um assunto delicado, pois entendemos, como ser vivo, todas as formas de vida e, isto, é unânime. Mas é crucial e transformador percebermos a diferença entre animais e vegetais, não são a mesma coisa quando os tratamos como alimentos. Não para nós, seres humanos. E isto transcende o ensinamento milenar do Yoga como, dentre muitas técnicas e conceitos, observância aos preceitos éticos.

Por exemplo, se compararmos a estrutura biológica dos seres humanos à estrutura biológica dos animais carnívoros e animais herbívoros, facilmente perceberemos que não temos nenhuma semelhança biológica aos animais carnívoros e, sim, para a nossa surpresa, aos animais herbívoros. Afinal, somos biologicamente animais mamíferos, mesmo que nos esqueçamos disso com certa facilidade.


E posso dar alguns exemplos: O trato intestinal de um carnívoro é retilíneo e possui, em média, uma vez e meio o seu tamanho. Isso para eliminar rapidamente as carnes do organismo, haja vista que elas são altamente intoxicantes. Já o trato intestinal de um herbívoro é curvilíneo e tem, em média, três vezes o seu tamanho. Isso para manter os alimentos verdes por mais tempo no organismo para serem digeridos, lentamente. Nos seres humanos o trato intestinal é também curvilíneo e possui, em média, três a quatro vezes o seu tamanho. Quanto a transpiração, nos carnívoros a transpiração é pela boca, através da língua, basta ver um cachorrinho com a língua de fora numa tarde quente ou depois de caminhar bastante, ele está transpirando. Nos herbívoros a transpiração é cutânea, igual na gente, seres humanos. Não possuímos equipamentos naturais de caça, como garras e grandes presas, comuns aos carnívoros, mas inexistente nos herbívoros. Eu poderia apresentar uma série de outros exemplos que comprovam facilmente que, biologicamente, não fomos programados para ingerir carnes e, sim, alimentos verdes, naturais. Portanto, na verdade, fomos condicionados a ingerir carnes desde os períodos glacias, onde os alimentos verdes congelaram e precisávamos comer qualquer coisa que rastejava para não morrermos de fome. Há outras teorias sobre o condicionamento alimentar através das carnes, mas isso será tema para um livro, mais específico, sobre a alimentação no Yoga.


Então, a alimentação yogi, por diversos motivos, biológicos e culturais, é aquela que se baseia em grãos, sementes, flores, frutos, folhas e raízes, também o consumo de leite e derivados, chamada por muitos, de alimentação lacto-vegetariana.

O consumo de leite na Índia, tradicionalmente, se dá pela crença de que a Vaca é considerada um animal sagrado. A vaca é o símbolo de mansidão, tolerância e força. Símbolo da mãe nutridora, a que sustenta a vida. Também como protegida e amada de Gopala (vaqueiro), uma das figuras da divindade Krishna. Das fezes, se faz a casa, do seu leite o alimento, e até a sua urina é utilizada como medicamento. Então, nessa linha de raciocínio, como poderíamos nos alimentar da carne de um ser com tamanha importância dentro do contexto cultural. Portanto, não seria adequado, biológica e eticamente, havendo alimentos verdes para serem preparados e consumidos, nos alimentarmos das carnes e sangue de um animal mamífero. Como, assim, também o somos.

Continuando a investigação dos pilares da alimentação vegetariana no Yoga, observamos, agora, a antiga filosofia indiana, Sámkhya, e as qualidades, Gunas, da matéria.


Púrusha - A Consciência Primeira


A filosofia Sámkhya é um dos seis sistemas filosóficos da Índia (dárshana). Formam a base do pensamento e comportamento yogi e de outras tradições, como a do Ayurveda (ciência da vida).

Para a filosofia Sámkhya o Universo é binário, composto por duas partes: a Consciência Primeira, sutil e reverberante, chamada de Púrusha, e a Natureza Material, física e densa, chamada de Prákrti. Nessa forma de interpretação do Todo, a natureza humana, seus elementos, relação e cooperação da matéria com o cosmos estão em movimento e buscando o gerenciamento do seu equilíbrio e continuidade da própria existência.


No Sámkhya tudo provém da Consciência Primeira (Púrusha), a grande consciência que não possui forma e está além do tempo, do espaço e da causalidade. Abrange tudo aquilo que não pode ser visto ou percebido pela mente. É como se todos os seres fossem um pequeno pedaço dessa grande Consciência. Pois a natureza da mente humana oferece muitos obstáculos, como a imaginação, a memória, as emoções e tantas outros, o que acaba promovendo inquietude e agitação mental e, dessa maneira, tende por ofuscar Púrusha que reside dentro de cada ser.


Púrusha não participa de sentimentos humanos, isso é a matéria - Prákrti. A verdade é acessada quando se entende que não importa o que aconteça, nada afeta Púrusha, pois ele antecede a natureza humana e é indiferente a ela. Assim, somente quando a mente está em repouso, Púrusha é percebido sem o ofuscamento causado pelas qualidades da matéria agitada (Prákrti).

Prákrti - A Natureza, a matéria que constitui o mundo físico


É a força criativa da ação manifestada. Fonte da forma, dos atributos e da natureza.

A natureza se manifesta por qualidades (gunas), como se cada ser possuísse uma consciência individualizada, atribuindo características próprias segundo a sua própria essência. Essas qualidades somam-se três: Sattva (equilíbrio), Rajas (atividade) e Tamas (inércia).


Sattva – o equilíbrio, a estabilidade e a segurança:

Matéria leve, sutil e fluida ligada ao ato de evoluir, avançar e progredir. É a consciência e a inteligência. Relaciona-se com os cincos sentidos da percepção e os cinco sentidos da ação. Compreende o mundo subjetivo capaz de perceber e manipular a matéria.


Tamas – a inércia, a inatividade e o comodismo

Matéria densa e pesada relacionada ao ato de resistir e regredir. É a resistência e a inércia. Desenvolve-se em objetos dos sentidos cognitivos - som, tato, forma, sabor e odor -, que por sua vez produzem os Cinco Grandes Elementos (pancha mahabhutas) que constituem o universo físico: Éter (Vácuo), Ar, Fogo, Água e Terra. O mundo objetivo dos cinco elementos.

Rajas – a atividade, a ação, a constância

Matéria intermediária associada a energia mental racional e à impulsividade. É a emoção e a ação. É a força do movimento que gera a energia e, por sua vez, coloca em contato os dois mundos, objetivo e subjetivo.


Sattva, Tamas e Rajas são as três forças pelas quais Ahamkara (Ego) cria a imagem de si mesmo. Assim, a união de Púrusha e Prákrti produz todas as coisas conhecidas e não conhecidas. Nos traz à visão de mundo que temos; Por esta razão é de suma importância compreendermos como somos constituídos e quais são as reais necessidades da condição existencial ao qual vivemos e morremos. Isto, seguramente, faz a diferença entre vida, na acepção mais autêntica da palavra, e morte. Afinal, vamos todos morrer, mas nem todos conseguem viver corretamente. E para tal, é necessário converter ignorância em sabedoria. É preciso despertar!


Os corpos do ser humano